6 de mar. de 2009

Estou de volta.... 2009 chegou. E não é bonito ...

É, crianças.... Titia demorou para voltar a escrever mas cá estou eu, firme e quase forte, escutando uma cantora soprano cantando "Oh! Darling" do Beatles de um jeito tão agudo e com vibratos que não caem bem em blues de raiz e mal consigo ouvir meus pensamentos...

Mas.... Vamos aos trabalhos...

A última vez que escrevi faz uns oito meses e MUITA coisa aconteceu....

Meu gato, Ariel, querido, filho amado, companheiro de tantas horas de choro, juiz de caráter de amigos e namorados, paizão, despertador, cobertor, travesseiro, confidente, minha alma .... morreu no dia 17 de janeiro deste ano.

Ele sempre viveu bem, comigo, por dez lindos, longos e felizes anos, saudável, brincalhão, inteligente e ativo... Um certo dia, amanheceu meio xoxinho. Ficou de canto, não comeu muito, não tomou muita água, não miou para me acordar, não quis brincar. Deixei. Poxa, o gato também tem direito a uma depressãozinha, né?

Dia seguinte, xoxo ainda. Me preocupo. Isto nunca era normal. Gato de dez anos, castrado, poderia estar cansado... Mas não o MEGA ULTRA POWER SUPER ARIEL!!! Pânico invade minha alma. Hora de ir ao veterinário.

Levo ao veterinário à noite. Onde levar? O que tem aberto de noite? Hospital Sena Madureira? Pet Center Marginal? Cobasi está fechado. Não conheço muita coisa, são poucas minhas opções... Escolho Pet Center Marginal.

Consulta. Ele está desidratado (caraca, a veterinária deve ter achado que eu fui para Salvador no ano novo e deixei o gato em casa com uma vasilhinha de água e ponto final). Sinais vitais bons. Bons batimentos cardíacos, temperatura 2 graus abaixo do normal (capítulo à parte: a temperatura normal de gatos adultos é por volta de 39 graus. O Ariel estava com 36,9).

A veterinária achou bom fazer exame de sangue e deixá-lo internadinho no soro, para se recuperar. A mucosa da boca estava bem seca, realmente. À esta altura, me pergunto que tipo de "dona" sou eu, que não percebi o gato com a boca seca. O que caralhos eu estava fazendo que não percebi o gato ficar com menos água do que precisava? Onde caralhos eu estava????

Pois bem. É quarta-feira. Meu rodízio. Não posso ir no horário de visitas da manhã. Fico devendo uma visita caprichada à noite. À esta altura o coitado do Ariel já deve achar que eu resolvi abandoná-lo. Saco, inferno, caralho, puta que pariu.

Vou ao pet à noite, depois do rodízio. O Ariel continua xoxo. Sem vida, sem coragem. Ronrona, fica deitadinho na maca, reclama do soro na patinha. Deita no meu braço e fica procurando calorzinho para fugir da maca gelada de alumínio do consultório.

Quinta-feira. Vou à Pet pela manhã, antes do trabalho achando que já poderia levá-lo para casa. Negativo. Exame de sangue não estava pronto e ele ainda não estava comendo ração. Ficaria internado até a noite.

Eu trabalhando, com o coração apertado e tendo que atender clientes, pensar, trabalhar bem, produzir. Que inferno de mundo!

16:30h. Recebo a ligação da médica solicitando autorização para exame de detecção de diabetes. Autorizo. Nem pergunto qual o preço. Sim, o Ariel teria que ficar internado pelo menos até sexta-feira pela manhã...

17:30h - Resultado positivo. O Ariel achou bonito ter diabetes. Ok, gato adulto, bem acima do peso. Caralho.... A médica me liga no celular para solicitar autorização para insulina. Autorizo e saio correndo para o Pet, para o horário de visitas.

Chego ao pet quase no final do horário de visitas. O trânsito infernal. Minha cabeça borbulhando. Visito-o. Ele está com uma patinha raspada, com soro na veia, fita crepe segurando a agulha na veia e ele me parece de repente tão pequeno, frágil e indefeso. Caraca! Meu filho está doente! E eu nem posso perguntar para ele onde dói ou se posso fazer alguma coisa para ajudar. Fico por 4 horas em visita. É hora de ir para casa dormir.

Volto pela manhã. O resultado das primeiras horas de insulina foi satisfatório. Ele ainda não quer comer. A veterinária oferece ração moída na seringa. Ele já está procurando água sozinho. Começo a ter alguma sombra de esperança de que as coisas vão ter um final feliz...

Visita da noite. Os resultados estão estagnados. Será necessário aumentar a dose de insulina. Fico com ele todas as horas que meu corpo aguenta, extrapolo o horário de visitas (das 16h às 19) e saio do consultório às 23:30h. Afff.... Vamos esperar. É possível que ele possa ser liberado na manhã de sábado.

Sexta-feira. Horário da manhã. Não posso ficar muito tempo. Então, me contento com uma hora e meia. O bichinho está com as duas patinhas raspadinhas, uma delas ainda com o soro, tomando as insulinas. A parte interna da coxa também raspada, para os exames de sangue a cada 4 horas para testar os níveis de insulina... Geeze!!! Cadê os pelinhos do corpo dele? Aquele corpinho sexy, todo fofo e quentinho.... Coitado... devia estar uma peneirinha. Todo furado, judiado, tirando sangue das veiazinhas tão fininhas, tomando soro, sem conseguir comer sozinho, ficando numa caixinha perto de outros gatos miando, com gente estranha a toda hora manipulando ele. E eu, indo visitar duas vezes por dia. Devia estar achando que eu o estava abandonando aos poucos. Que vida é essa???

Visita da noite. Palavras da veterinária: "o prognóstico é sombrio.Estamos fazendo de tudo para ajudá-lo, mas as coisas não estão bem. Ele está na U.T.I., porque os batimentos cardíacos caíram um pouco e a temperatura dele caiu também. Ele está com uma manta térmica, sendo monitorado a cada dois minutos por enfermeiros.". ME DESESPERO. Pela primeira vez me dou conta de que o Ariel não é eterno, a morte existe e, infelizmente está muito próxima do meu filhote. Mas, a esperança ainda existe, claro. Só pra mim. Gente burra é mesmo phoda. Que inferno.

Fico lá, no Pet, na sala de espera. Não posso visitá-lo na U.T.I. Me resta aguardar. Pacientemente. Há! Fácil, né? O Dani, tadinho, xôxo. Do meu lado, sem saber o que fazer. Triste também com o amigo dele. 2 anos de convivência. O carinho existe. O Ariel adora o Dani. Adotou o Dani desde o primeiro dia. Já foi sentando no colo dele. Sempre aceitou carinho, já deixou de dormir comigo para ficar deitado nas costas ou nas pernas do Dani. Ai, Cú!

No mundo lá fora, chuva. E que chuva. Na tevê, o capítulo final de "A Favorita". Flora quer fazer um musical com Donatella. Os "mocinhos" da novela querem fazer uma armadilha em que a "bandida", louca e má (ahn, uma mulher que sempre foi um gênio do mal, repentinamente, por causa de uma música "Beijinho Doce", começou a fica acéfala. Ai, roteiristas, escritores e diretores... Acham mesmo que eu sou assin tão burra? - Pensando bem, tendo que ouvir "Beijinho Doce" na voz de pato com vibrato sofrido e língua presa de Cláudia Raia realmente leva qualquer ser à loucura!!!). Bem, Flora no melhor estilo "Scooby Doo" confessa - claro - todos os seus crimes para Donatella e, do lado de fora das cortinhas do palco, uma platéia de pessoas que aguardam, silenciosas e - claro - fazendo papel de isolantes de som para que Flora - a louca - não ouvisse sua própria voz nos P.A.s do teatro.

E o gato lá, doente, sedado.

A veterinária volta e diz que o Ariel estava sedado, e que ela me deixaria vê-lo rapidamente na U.T.I. mas que eu deveria me preparar porque, como ele estava sedado, estava com alucinações, vocalizando um pouco mas que não estava com dor. Só uma pessoa poderia entrar. Vou eu.

Entro na sala. O Ariel deitado de lado, inconsciente, com monitores por todos os lados. Mal tem espaço no corpinho dele para eu tentar tocá-lo, acariciá-lo. Há monitores na orelha, na cabeça, fios passando por todos os lados, um cobertor térmico, três monitores, catéter do soro, catéter da insulina. Meu coração quebra. O que é que fizemos para merecer isso, meu Deus? Começo a chorar. Mas não copiosamente. Me choco de tal forma que mal consigo respirar. Devo ter ficado mais branca ainda do que sou e com a boca roxa, porque a enfermeira veio me trazer um copo de água e a médica disse uma meia dúzia de palavras que não registrei. Eu só conseguia ver meu filho internado, inconsciente, vocalizando, tremendo, com um monte de fios e eu só queria pegá-lo no colo, abraçá-lo, dizer que tudo ia ficar bem e levá-lo pra casa.

Mas uma ou duas frases. Alguma coisa com o nome do Dani no meio. Reconheço o nome e faço um sinal de "sim" com a cabeça,sem saber o que era.

Passam três milhões de segundos, a veterinária diz alguma coisa para o Dani quando ele chega. Ele me abraça. Eu fico estagnada no lugar. Não consigo falar, me mexer, pensar. Acho que não sei mais respirar. Como é que eu vim parar aqui?

A veterinária diz que precisamos sair. Isso eu me lembro de ouvir porque eu não queria sair de lá. Não queria ver o Ariel daquele jeito, mas não poderia deixá-lo sozinho. .. Começo a me lembrar de como respirar. Aliás, começo a pensar. E as coisas que penso não são bonitas. São negras. Minha memória também volta. "O prognóstico é sombrio".

Beijo a cabeça do Ariel, susurro "Fica com Deus" e deixo ele nas mãos dos médicos.

Volto para a sala de espera.

Meia-noite. Oficialmente dia do aniversário do Dani. Que senso de humor é esse, anjos, deuses, vida, destino??? A veterinária vem para a sala de espera, diz que está saindo de seu plantão, que outra médica assumirá, mas que os cuidados intensivos continuam. Ele pega minha mão e, com a melhor cara de "irmã mais velha piedosa" que alguém pode fazer, diz: "enquanto ele estiver lutando, nós vamos lutar por ele".

Choro copiosamente. A verdade está aqui. E não é bonita. Não é colorida, não é serena. Me disseram que a doença piorando - corpos cetônicos na urina, complicações de altos níveis de diabetes as coisas ficariam feias.... (caralho, onde eu estava que nunca percebi o meu único filho morrendo diante dos meus olhos? Como poderia saber que um gato feliz, ativo, brincalhão - até demais - com bom apetite, vida regularmente perfeita, ronronante e exigente estava doente? Como, meu Deus? alguém pode me dizer? Nunca, nada... Nenhum tosse, espirro, coceira, diarréia, apatia, náusea... nada...nada... Meu Deus. O que sou eu sem as palavras? O que eu sei sem que os outros me digam, verbalmente? Que droga de pessoa sou eu?).

Se as coisas ficassem feias, rins, coração e pulmões iriam parar. Se rins parassem, poderia ser feita diálise. Se não funcionasse, os pulmões falhariam. Se falhassem, ele poderia ser induzido ao coma, para preservação dos sinais vitais até recuperação pela aplicação de insulina. Se os pulmões falhassem e o coma não fosse conveniente, o coração pararia. Antes disso, eu precisaria dar a autorização para a eutanásia.

Isso nunca! Egoísta? Pra caralho! Claro! Como é que se autoriza assassinato?

... Como é que se permite a dor e sofrimento de alguém que não pode mais se recuperar, só para não ser "assassino"? Não quero lidar com a idéia. Ora, se pessoas que ficam 15 anos em coma retornam e se vítimas de acidentes aéreos terríveis sobrevivem, eu poderia não ter que, necessariamente ter que conviver com esta palavra novamente.

Uma e quinze da madrugada. As coisas ficam feias. A veterinária vem me dizer que dizer que eu preciso me preparar porque ele está muito pior. Há! Veio me dizer para eu "ME PREPARAR".

E quem se prepara para a morte de um ente amado? Me diz aí: quem? Choro. E muito. Como uma criança que perdeu o brinquedo. A merda está chegando e ela tem pressa. Quem é que está trazendo a foice e por que? Por que???

Uma e meia da madrugada. A veterinária me chama para dentro do corredor de consultórios. As palavras "Patrícia, infelizmente o Ariel morreu.".

VAZIO

Grito.

Sinto o chão fugindo dos meus pés. Cadê o ar? Cadê a vida? Como é que se fica de pe?

Caio no chão. Sinto o braço do Dani tentando me pegar. Too late. O chão está lá, sob mim. Não sinto minhas pernas. Onde é que estou? O que você acabou de me dizer? Você só pode estar brincando! o que? O Ariel... MORREU? Isso é im.... pos-sí-vel.

Meu Deus. O Ariel morreu.

Me levanto, com a ajuda do Dani. Não sei quem sou eu e nem porque tenho que ser alguma merda. O Dani está chorando. Tem muitas lágrimas no rosto dele.

A veterinária me pergunta se quero ver o corpo. COR-PO???

Vou para o consultório. Espero o CORPO ser trazido. A morte é diabólica. Não há nada de sereno. Nada é bonito. Não há nada, nada lá. É só um corpo.

O CORPO chega. Ele é mole, quente e me parece tão.... vivo.... A morte não tem a menor graça. Nada nela é digno. NADA.

Fico uma hora com o corpo. Não sei como desligar o cordão umbilical. Eu vi tudo deste gato. Peguei cada bogide que caiu. Vivenciei a troca de dentes. Tenho eles guardados. Eu respirei Ariel. E agora, do nada.... Morte? Quero dizer, como assim??? COMO A-S-S-I-M ???

Bom, amigos...20009 chegou. E para mim chegou com os dois pés no peito. Uma voadora no tórax, uma facada nos rins. O ano novo chegou e, para mim, foi doloroso.

Espero um dia acordar e voltar a me sentir eu. Espero voltar a lembrar de como ter bons sonhos. Espero esquecer o que é insônia. Espero poder dar suporte para o Dani como ele me deu. Espero poder esperar algo melhor dos outros 9 meses que ainda tenho pela frente.

Espero sobreviver à morte.

Um comentário:

Fran disse...

Oi!! Como vc tá?
Sou amiga do Daniel e ele me falou sobre o Ariel... Lendo o seu post tenho uma pequena idéia (pq só nós sabemos o qto é grande nossa dor) de como deve ter sido dolorido! Não há muitas palavras de conforto para a morte, mas tenha força! Tire forças dos muitos momentos maravilhosos que tiveram!
O Daniel sempre fala de você, precisamos marcar algo para nos conhecermos!!
Beijos